Indígenas migram para a cidade
“O EtnoCidade não é uma ONG. É um pacto entre indígenas e não indígenas que busca dar visibilidade a Cultura Indígena nas Cidades e apoiar o protagonismo indígena”.
Alessandro Oliveira
Por que um indígena vai a cidade? Responder a pergunta é aparentemente simples. Um indígena vai a cidade em busca de melhores oportunidade de trabalho e educação. Em alguns casos busca tratamento de saúde. A resposta é clivada pela leitura ontológica do conquistador branco. Mas, esconde coisas que são essenciais dentro da ontologia indígena. Assim, é preciso cavar um pouco mais fundo para responder com mais propriedade esta pergunta. Esta é a razão de ser do EtnoCidade. Um grupo de indígenas e não indígenas de Campinas que busca compreender, de um lado, as trajetórias que levaram os indígenas a procurarem a cidade e, de outro, compreender sua permanência nela. A resposta é cheia de nuances e se desdobra num esforço de entendimento do lugar da cultura indígena em meio urbano. Sua principal contribuição consiste em tirar da frente os equívocos produzidos a respeito do isolamento das aldeias, sobretudo, aqueles reproduzidos em livros didáticos. Questionar a noção de congelamento espacial e histórico que uma literatura equivocada apresenta não implica numa adesão a um discurso também equivocado de integração do indígena a sociedade não indígena. Terra, relação com a floresta e luta por outros modos de viver em sociedade continuam sendo essenciais para os 305 povos que vivem no Brasil. A circulação na cidade não ocorre apenas em função de uma busca de sobrevivência ou melhores condições de vida. Ainda que a questão da sobrevivência seja imperativa a presença indígena na cidade também implica numa necessidade de defesa do modo de vida nas aldeias. É na cidade que ocorre a educação dos não indígenas, é na cidade que se criam as leis, é na cidade, portanto, que se estabelece parte da luta pela sobrevivência da própria aldeia. Mas existem ainda outros motivos, habitar a cidade por escolha. Uma ideia que incomoda muita gente, indígena e não indígena, pois acredita-se que esta condição carrega consigo uma rendição. Contudo, o ato só se define como rendição quando falta consciência, quando se recusa sua origem. O indígena que habita a cidade é indígena e ponto, nada pode mudar isso a não ser sua recusa em identificar com seu povo, com seus antepassados. Tirando esta condição o indígena que habita o meio urbano, mesmo longe da aldeia, é um aliado na defesa de seu povo e, nesta condição, estar na cidade não corresponde a uma integração ao mundo não indígena, mas sim na manutenção do legado de um povo em meio as barreiras e adversidades inóspitas das cidades e metrópoles. Estar na cidade é trazer referência para o mundo urbano do que significa a vida na aldeia. Mais que isso, é reiterar o direito de escolha, o direito de ir e vir, o direito de estar onde quiser, afinal, é preciso lembrar, antes da cidade todo território, inclusive o da cidade era livre. Estar na cidade é defender a liberdade. Para nós do EtnoCidade, o indígena urbano não é uma figura exótica que instiga a curiosidade, não é um ser inocente que precisa de proteção (foi se o tempo de tratar os povos autóctones como bons e maus selvagens). O indígena urbano ou aldeado é parte da história reconhecida ou não de muitos não indígenas. A maioria dos indígenas urbanos não perdem referência e a ligação com sua aldeia e neste sentido nutrem em nós uma esperança. Afeta-nos com sua sabedoria e ilumina na medida que nos ensina outras formam de relacionar com o mundo. Interessa a nós indígenas do Etnocidade dar visibilidade a nossa cultura no espaço urbano, exigir mais respeito ao nosso modo de ser e estar no mundo, fiscalizar os direitos conquistados, reeducar as pessoas, sobretudo, as crianças indígenas e não indígenas sobre os povos originários. E para nós não indígenas interessa apontar e assumir o legado histórico dos povos indígenas enquanto parte fundante de nós mesmo, despertar nos habitantes da cidade uma relação mais integrada com a natureza, acentuar a diversidade como elemento de garantia da democracia e de riqueza de uma nação.
